Quando o diagnóstico de uma lesão mamária surge, a primeira reação da maioria das mulheres não é técnica, é visceral. Antes mesmo de processar as chances de cura ou o protocolo de quimioterapia, o pensamento costuma estacionar no espelho. “Como eu vou ficar?”, “Ainda serei eu mesma?”. Essa angústia não é vaidade; é a preservação da identidade. A mama carrega um simbolismo denso que atravessa a maternidade, a sexualidade e a própria percepção de feminilidade. O desafio da mastologia moderna, portanto, não é apenas retirar a doença, mas proteger a mulher que existe para além dela. Antigamente, a cirurgia de mama era vista como uma batalha de terra arrasada. O foco era a radicalidade: quanto mais tecido removido, teoricamente, maior a segurança. Hoje, o paradigma mudou drasticamente. Entramos na era da cirurgia oncoplástica, onde as técnicas de cirurgia plástica são integradas ao tratamento oncológico desde o primeiro minuto. O objetivo é garantir margens de segurança oncológica rigorosas e, simultaneamente, manter a simetria, o volume e o contorno mamário. Imagine o caso de uma paciente que acompanhei recentemente, vamos chamá-la de Helena. Ela tinha um tumor no quadrante superior externo da mama esquerda. Em outros tempos, ela perderia a mama inteira. Com a abordagem atual, utilizamos uma técnica de mamoplastia terapêutica. Retiramos o tumor com margem de segurança e usamos o próprio tecido remanescente da paciente para remodelar a mama, fazendo o mesmo procedimento na mama oposta para garantir a simetria. Helena saiu da sala de cirurgia não apenas livre do tumor, mas com mamas cujos volumes estavam equilibrados, reduzindo o impacto psicológico do “vazio” que muitas sentem no pós-operatório. A decisão entre uma cirurgia conservadora (onde apenas parte da mama é retirada) e uma mastectomia depende de fatores biológicos, como o tamanho do tumor em relação à mama e a multicentricidade da doença. No entanto, mesmo quando a mastectomia é inevitável, a reconstrução imediata — seja com próteses de silicone, expansores ou retalhos de tecidos da própria paciente (como o abdômen ou as costas) — tornou-se o padrão ouro de cuidado. A reconstrução imediata oferece um benefício emocional incalculável. Acordar da anestesia e sentir que a estrutura do corpo permanece ali, ainda que em processo de cicatrização, altera a forma como a paciente encara as etapas seguintes, como a radioterapia ou a hormonioterapia. A cicatriz deixa de ser um símbolo de perda para se tornar uma marca de travessia.
Médico especialista em Mastite
É preciso falar também sobre a sensibilidade e a simetria do mamilo e da aréola. Hoje, existem técnicas de preservação do complexo aréolo-papilar quando o tumor está a uma distância segura, e, nos casos em que a remoção é necessária, a micropigmentação paramédica e as reconstruções locais entregam resultados visualmente muito próximos do natural. O papel do mastologista e do ginecologista nesse processo é o de um arquiteto da saúde. Não olhamos apenas para o nódulo na mamografia ou para a biópsia; olhamos para o estilo de vida daquela mulher, suas expectativas e seu histórico familiar. A genética, inclusive, desempenha um papel crucial aqui: mulheres com mutações nos genes BRCA podem optar por cirurgias redutoras de risco, onde a reconstrução assume um papel preventivo e restaurador ao mesmo tempo. O acompanhamento não termina quando os pontos são retirados. A saúde mamária é um continuum. Envolve a fisioterapia para garantir a mobilidade do braço, o cuidado com a pele que passou por radiação e o suporte psicológico para ressignificar o novo corpo.