tireoidectomia total consequências
Você já sentiu como se houvesse um corpo estranho na garganta, algo que não desce nem sobe, acompanhado de uma necessidade constante de pigarrear? Esse sintoma, que chamamos tecnicamente de globus pharyngeus, é um dos sinais mais clássicos do refluxo faringo-laríngeo (RFL). Diferente do refluxo gastroesofágico (DRGE) convencional, em que o paciente frequentemente se queixa de azia e queimação retroesternal, o RFL é silencioso no tórax, mas devastador para as pregas vocais e a mucosa da laringe.
A anatomia aqui desempenha um papel crucial. Enquanto o esôfago possui mecanismos de defesa robustos, como o peristaltismo eficiente e uma camada de bicarbonato, a laringe e a faringe são extremamente sensíveis. Elas não foram projetadas para suportar o pH ácido do estômago, muito menos a presença de pepsina — uma enzima digestiva que, mesmo em ambientes não tão ácidos, pode se “alojar” no tecido laringeo e causar microlesões inflamatórias crônicas. O cenário clínico e a confusão diagnóstica Imagine um paciente, professor, que acorda com a voz “pesada”, rouquidão matinal e uma tosse seca persistente que não responde a xaropes comuns. Ele não sente queimação no estômago.
Muitas vezes, esse indivíduo passa por diversos tratamentos para alergias ou sinusites antes de chegar ao consultório do cirurgião de cabeça e pescoço. Na avaliação especializada, utilizamos a videolaringoscopia (ou fibronasolaringoscopia). Através de uma fibra óptica flexível, examinamos a região retrocricoide e as aritenoides. O que buscamos não é apenas o ácido, mas os sinais de sua passagem: o edema (inchaço), a paquidermia (espessamento da mucosa entre as aritenoides) e o eritema (vermelhidão intensa).
Em casos mais severos, o refluxo pode ser o gatilho para granulomas de pregas vocais, que são lesões benignas, mas que comprometem severamente a qualidade fonatória. Por que o cirurgião de cabeça e pescoço? A pergunta que muitos pacientes fazem é: “Por que não ir direto ao gastroenterologista?”. A resposta reside na exclusão de diagnósticos diferenciais graves. O RFL crônico causa uma inflamação que, visualmente, pode mimetizar lesões pré-malignas ou até um carcinoma epidermoide inicial em pacientes fumantes ou etilistas. O olhar do cirurgião de cabeça e pescoço é treinado para distinguir a inflamação por ácido de uma neoplasia que exige biópsia imediata.